segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Por que Querida Konbini é tão importante?

Irasshaimasê! Hoje vou trazer para vocês as minhas opiniões sobre o livro Querida Konbini (コンビニ人間), lançado no Japão em 2016 pela autora Sayaka Murata. Esse é um dos romances contemporâneos da literatura japonesa mais comentados nos últimos anos. Na época em que foi lançado, foi prestigiado com o prêmio Akutagawa, que todos os anos premia as melhores histórias literárias publicadas por autores em ascensão, além de ser uma das premiações literárias mais importantes do Japão. No Brasil, a obra foi publicada pela editora “Estação Liberdade”, contendo 148 páginas e traduzida diretamente do japonês pela Rita Kohl, que traduziu também outros livros da Murata, incluindo “Terráqueos” (2018).

O livro é de uma leitura fácil e rápida, sendo que a versão brasileira possui margens amplas e uma fonte grande. Antes de começar eu não sabia muito sobre o enredo, pois gosto de fazer minhas leituras descobrindo do que se trata e me surpreendendo aos poucos. A postagem está no formato de "diário de leitura", em que conforme eu fui lendo eu escrevia comentários com minhas opiniões e meus pensamentos sobre a obra. Deixo aqui explícito um aviso de spoiler, pois durante toda a postagem estarei mencionando pontos importantes do enredo. Vamos nessa?

Capas das edições brasileira (esquerda) e japonesa (direita).

sobre a autora:
Sayaka Murata nasceu em 1979 em Inzai, cidade próxima a Tóquio. Fã de mangás e ficção científica, desde a infância já escrevia histórias. Seu interesse por escrita era tão grande que, na quarta série do ensino fundamental, tentou escrever um romance inteiro à mão, o que levou sua mãe a lhe presentear com um processador de textos. Em 2003, Murata publicou seu primeiro romance e logo foi premiada com o prêmio Gunzo de Novos Escritores. Em 2016, escreveu o romance Querida Konbini, que a rendeu diversos prêmios e o título de Mulher do Ano pela revista Vogue. O livro vendeu mais de 1,5 milhões de cópias no Japão e já foi traduzido para mais de 30 línguas. 

Os temas abordados por ela costumam se relacionar à não conformidade dentro da sociedade japonesa nas relações de gênero, trabalho e na sexualidade, muitas vezes incorporando aspectos distópicos ou de horror. Muito do que vemos em sua escrita vêm de suas observações diárias como funcionária de uma loja de conveniência, função que ocupou por 18 anos e que serviu de grande inspiração para o enredo de Querida Konbini. A aceitação social da assexualidade (seja como celibato voluntário, involuntário, ou de qualquer outra forma), especialmente dentro do casamento, é tema recorrente em vários de seus trabalhos. Além disso, Murata muitas vezes escreve sobre tabus da sociedade japonesa em suas obras mais populares. A autora acredita que quanto mais escrever sobre o questionamento desses tabus, mais perto ela chegará da "verdade real das coisas".

A autora Sayaka Murata em uma loja de conveniência (konbini). Fonte: O Globo.

a história:
Aos 36 anos, Keiko nunca se envolveu romanticamente e, desde os 18, trabalha numa konbini — todos insistem que ela arranje um trabalho sério ou, pior ainda, um marido. Keiko, no entanto, está satisfeita consigo mesma. Deslocada desde a infância, é na loja, com regras estritas para os funcionários e dinâmica precisa de funcionamento, que ela consegue pela primeira vez se sentir uma peça no mecanismo do mundo. 

diário de leitura:  
As primeiras páginas do livro introduzem a personagem principal, Furukura Keiko, como uma atendente de uma konbini: a loja de conveniência japonesa. A escrita é feita em primeira pessoa, ou seja, a própria Keiko que narra sua história. Já no começo do livro podemos identificar características da tradução muito interessantes, como o uso do termo “trabalho temporário” para se referir ao que eu imagino que sejam os “arubaitos” do Japão. Também observei que a palavra “konbini” não é marcada com o itálico durante o livro, talvez por ser um nome comum que aparece durante toda a escrita ou para diferenciar o local como algo especificamente japonês, e não como qualquer loja de conveniência, então decidi grafá-la da mesma forma neste texto. Inicialmente, vemos Keiko como uma pessoa sensível aos sons da loja, conseguindo identificá-los e percebê-los bem individualmente. Outras características são utilizadas para descrevê-la: a dificuldade de entender as ações das pessoas ao seu redor e como sua mãe sempre a repreendeu por suas atitudes diferentes das dos outros; a necessidade que sente de imitar outras pessoas, mesmo apesar de não compreendê-las, para que não houvessem problemas com suas atitudes; e sua visão de mundo completamente diferente da de todos ao seu redor.

A forma como ela narra a história e a forma como ela compreende o mundo é muito diferente do que estamos acostumados a ler. Ela conta que apenas dentro da konbini ela é capaz de se sentir parte do mundo e da sociedade, já que lá não existem pressões sociais para ser normal, mas sim deve-se apenas imitar os vídeos de instrução e os superiores e você será valorizada. Imitar é a coisa mais natural para ela, já que desde criança ela imita as pessoas para não ser rejeitada. Apesar disso, ela acredita que isso seja normal para todas as pessoas, que se “contagiam mutuamente para manter sua humanidade”. 

Keiko divide o mundo dentro da konbini entre as seguintes “criaturas fictícias”: os Senhores Clientes, os Funcionários e o Gerente. Cada um tem sua função dentro desse mundo, e, como Funcionária, ela finalmente se sente como uma “peça no mecanismo do mundo”, um ser humano normal.

É curioso e até mesmo doloroso perceber a forma como Keiko se enxerga dentro da sociedade. Ela simplesmente não sente que ela faz parte do mundo e conta que as pessoas, até mesmo sua própria mãe, expressam diversas vezes o desejo que ela fosse “curada”. As pessoas não entendem seu ponto de vista e constantemente forçam suas expectativas na personagem. Keiko já tem 36 anos e trabalha há 18 anos na loja de conveniência como uma funcionária temporária, então sua família e seus amigos se incomodam com sua situação, apesar de que ela se sente confortável com o lugar onde ela está, já que a konbini proporciona a ela a oportunidade de se sentir parte da sociedade. Todos cobram uma vida “normal” de Keiko, para que ela contribua de alguma forma para a sociedade, e ela constantemente deve pensar sobre cada um de seus movimentos e como irá agir em seguida, para que ninguém pense que ela esteja agindo estranho. O fato dela não ser casada e não ter tido um relacionamento durante sua vida leva as pessoas a até mesmo questionarem sua sexualidade, sendo que esse tipo de coisa não é nem imaginada por Keiko. Percebemos o tanto que o mundo é cruel para aqueles que não se encaixam dentro das normas.

"Se as pessoas acham que alguma coisa é esquisita, sentem-se no direito de invadir essa coisa para descobrir os motivos de sua esquisitice. é cansativo. Além de ser irritante ver essa arrogância toda. [..]"(p. 59)

É muito interessante ver a forma como Keiko se relaciona com as outras pessoas. Seus colegas de trabalho aparentemente não desconfiam de que existe nada de errado com ela, já que ela sempre imita suas características para tentar se encaixar no meio deles. O relacionamento mais interessante até este ponto do livro é definitivamente o de Keiko com sua irmã, Asami, aparentemente a única pessoa que consegue compreender Keiko. Asami sempre a ajuda a ter um convívio mais pacífico com o mundo, inventando histórias que Keiko poderá contar para as pessoas não estranharem seu comportamento.

Também podemos observar claramente a rotina de uma loja de conveniência japonesa: qual é o perfil dos funcionários, como eles trabalham, quais regras eles devem obedecer, como é feita a reposição do estoque, como é feito o treinamento para funcionários novos, como funciona uma loja aberta por 24h, como são os clientes, quais os horários de pico, quais as características da vizinhança e etc. Tudo isso é mencionado no livro e, apesar da loja ser japonesa, acredito que muitas lojas brasileiras funcionam da mesma forma, sendo interessante perceber o lado de quem está trabalhando.

Nas próximas páginas, um novo funcionário, Shiraha, entra na konbini. Ele trata o emprego na loja como algo inferior e irrelevante, além de deixar as mulheres da loja desconfortáveis. Logo ele é demitido e observamos a forma como falam sobre ele após sua saída, criticando-o e julgando-o com bastante desprezo e descriminação. Keiko também percebe isso e é muito interessante ver a forma como ela lida com isto. Ela observa todo o preconceito que tiveram com ele e pensa na forma como ela mesma seria tratada no momento que não agradasse mais os outros. Ela traz bastante a metáfora de que, neste mundo, corpos estranhos devem ser eliminados, mantendo, compulsoriamente, o padrão já existente. É interessante analisar essa reflexão feita por ela e ver como ela é a única pessoa que possui o mínimo de empatia pelo Shiraha, depois que todos já o abandonaram.

Shiraha é uma pessoa que se coloca como vítima em todas as situações, dizendo que a sociedade japonesa nunca mudou desde os períodos pré-históricos e todos devem apenas “satisfazer a aldeia”, senão serão rejeitados. Apesar disso, ele critica Keiko da mesma forma como é criticado, dizendo que ela já é “produto de segunda mão”. Ele também tem trinta e poucos anos, não é casado e, quando começou a trabalhar na konbini, Keiko se identificou muito com ele. Quando ela o encontra no meio da rua, desamparado após perder o emprego, e o convida para sua própria casa, percebemos o tanto que Keiko é uma pessoa empática e generosa. Ela até mesmo se oferece para casar com Shiraha para que essa pressão social constante sob os dois diminua e eles possam viver em paz.

É lamentável perceber como as pessoas reagem a essa relação dos dois. Ao invés de estranharem ou questionarem a rápida união, todos celebram e criam suas próprias versões do que aconteceu, comemorando que agora ambos estão contribuindo de alguma forma para sociedade. Keiko até mesmo comenta que, se soubesse que viver sem as pressões sociais era assim tão fácil, teria feito isso antes. Rapidamente ela é considerada “curada” e o “problema” é resolvido.

Essa reflexão que o livro traz sobre a forma como a sociedade lida com pessoas “diferentes” é muito relevante. Será que precisamos mesmo estar constantemente contribuindo para a sociedade? Será que o significado da nossa existência gira em torno de um trabalho ou um relacionamento? Acredito que a sociedade japonesa imponha muito mais obrigações sobre as pessoas do que aqui no Brasil, então, talvez, eu não possa entender perfeitamente a forma como os personagens lidam com a situação. Talvez também seja por isso que para mim é fácil ver essas obrigações como algo ilógico, sendo que para eles é algo natural e que deve ser feito dessa maneira. De qualquer forma, o livro traz esse pensamento para seu leitor. Como o público alvo são os japoneses, acredito que, com este livro, Sayaka Murata conseguiu abrir a mente de diversas pessoas com relação a essas questões.

Os funcionários da konbini, ao descobrirem sobre a relação de Keiko e Shiraha, deixam de tratá-la apenas como uma funcionária e se entusiasmam com o ocorrido, criando sua própria narrativa para a união dos dois, fervorosos com a notícia. Ela até mesmo descobre que eles costumam sair para beber juntos, já que agora passou a ser convidada também. Todos conversam com ela apenas sobre esse assunto, fazendo-a sentir-se como uma “fêmea da aldeia” antes de ser uma funcionária. Ela percebe como as pessoas se alegram apenas percebendo a possibilidade que ela tem de reproduzir a espécie e estando sob o mesmo teto que outro homem. Pessoas que ela nem mesmo conhece a julgam e a obrigam a ser uma pessoa “normal”, afirmando que senão ela estará inapta na sociedade. Sua própria irmã faz uma visita ao seu apartamento e fica aos prantos após descobrir o que realmente estava acontecendo e que era tudo uma mentira. Descobrimos nesta cena que, apesar de tudo, Asami também sempre desejou que sua irmã fosse “curada”.

Após ver o desespero de sua irmã e continuar sentindo as pressões externas para conseguir outro emprego e começar uma família, Keiko decide pedir demissão da loja e Shiraha a ajuda a procurar outro emprego. Aos poucos, os sons da konbini começam a desaparecer de sua cabeça. Ela sabe que, mesmo estando há 18 anos naquele lugar, seu espaço facilmente será preenchido por outra pessoa. Seus próximos meses são de imensa tristeza e depressão. Ela já não sabe mais como agir, o que fazer, o que usar como referência para o mundo. Toda sua vida girou em torno da konbini, e sua saída a deixa desconectada do mundo. 

Entretanto, no dia de sua primeira entrevista de emprego após a saída da loja, Keiko encontra na rua outra loja de conveniência e decide visitá-la. Neste momento, todas as regras e necessidades da konbini vêm à sua cabeça. Ela escuta a “Voz” da konbini dizendo tudo que precisa ser consertado e melhorado na loja. Neste momento ela tem uma revelação: ela não é apenas um ser humano, já que, antes disso, ela é um animal funcionário de konbini. Ela desiste de todas as obrigações sociais e das opiniões alheias e no fim decide seguir o seu “instinto animal” e continuar trabalhando no lugar onde ela pertence.

Podemos ver como as normas sociais influenciam a sociedade. Todos estão acostumados a viver um estilo de vida tão padronizado que quando encontram alguém fora desse padrão não conseguem fazer nada além de desprezá-lo e afastá-lo. Até mesmo aqueles fora do padrão não se aceitam e constantemente se repreendem por serem do jeito que são, tentando a todo custo se encaixar na sociedade. Essas são características que encontramos hoje no mundo inteiro, Murata apenas as expõem de uma forma leve e fácil de entender, com uma personagem interessante e intrigante. 

Este livro, intrinsecamente, faz diversas críticas políticas e sociais: ao capitalismo, representado pela konbini; às diferenças de tratamento às mulheres, como observamos com as expectativas que todos impõem sobre Keiko; à forma como não existe uma tolerância ao novo e diferente; como visto com Shiraha. Por conta disso, e por toda a popularidade que adquiriu desde que foi lançado, permitindo que essas reflexões atingissem um número grande de leitores, acredito que esse livro foi muito importante para a sociedade japonesa, que sofre severamente com estas normas até hoje, fazendo com que as pessoas pudessem refletir bastante sobre seus posicionamentos, o que talvez seja um dos fatores que o fez ganhar um dos maiores prêmios literários do país. 

Em muitos momentos podemos nos identificar com Keiko e percebemos como realmente não faz sentido os códigos sociais impostos. Seu modo de agir e sua visão de mundo podem ser estranhados inicialmente, sem que isso nunca seja discutido diretamente durante o livro, mas é importante ler com uma mente aberta para se permitir acompanhar o pensamento de Keiko e entender seus sentimentos. Ela nos faz perceber que talvez o mais importante não seja rotular quem somos e questionar formalidades, mas sim viver da melhor forma de acordo com seus próprios instintos e necessidades, sem se importar com o que os outros pensam.

Para além das críticas sociais, Querida Konbini permite que você olhe diretamente dentro do Japão por meio das diversas características do país que apresenta, como a comida, as expressões idiomáticas, a cultura do trabalho e das relações familiares, e, principalmente, a konbini, um tipo de comércio específico do Japão, que muitos nem mesmo consideram como uma simples loja de conveniência. 

Com esse livro, pude refletir bastante sobre a forma como eu me comporto perante à sociedade e como eu trato outras pessoas. Apesar de me considerar uma pessoa fora do padrão, ainda me encaixo dentro de um grupo de minorias, me fazendo pertencer a algum lugar. Talvez até mesmo já tenha expressado o pensamento capitalista e conservador exposto pela autora de que todos devem seguir um caminho definido para o sucesso. Aqui no Brasil, apesar dessas imposições não serem tão presentes a todo momento, ainda sofremos muito com expectativas. Dependendo da família e de onde você vem é possível que isso seja percebido com mais força. Na minha experiência, tento não me importar com as expectativas alheias e tento seguir meu próprio caminho, mas acredito que ainda sim pude ter sido uma das pessoas que impõe seus pensamentos em outras, já que estamos todos sujeitos a isso nessa sociedade. Após essa leitura, tenho ainda mais vontade de ir ao Japão e trabalhar em uma konbini. O mundo dentro deste lugar criado pela autora é apaixonante e intrigante, e te faz querer estar lá para ver de perto como é.

Recorte de imagem da capa da edição estado-unidense de Querida Konbini.

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Querida Konbini é um livro divertido, mas que traz muitas reflexões ao leitor e trata de assuntos muito relevantes e pertinentes para a contemporaneidade, principalmente no contexto da sociedade japonesa. Fiz a leitura em apenas um dia, pois é um livro fácil, rápido e divertido de ser lido. A tradução da Rita Kohl também está impecável, sendo uma inspiração para mim que penso em um dia realizar traduções literárias de língua japonesa. Foi uma experiência muito enriquecedora e eu definitivamente irei procurar outras obras da autora para ler. Recomendo a todos que façam a leitura dessa obra, principalmente se você já tem interesse na literatura e cultura japonesa.

Obrigado a todos que leram até aqui, espero que tenham gostado. Não deixem de comentar suas próprias opiniões e pensamentos com relação ao livro, estou ansioso para ouvi-los

Nos vemos novamente em breve. Até a próxima!

Links para adquirir o livro: 
Amazon (R$ 27,99) | Estação Liberdade (R$ 25,20)

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